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Maria Amélia Mestre


Descrição

Ela começou a manipular o barro quando tinha pouco mais de oito anos de idade, atendendo ao pedido do pai, João Bezerra da Silva, o mestre Dunde, para sentar no chão da olaria e criar “bichinhos”. A menina Maria Amélia da Silva adorava brincar e correr pelas ruas de Tracunhaém - cidade da Mata Norte que nos anos 1930 já se apresentava como importante entro produtor da cerâmica utilitária. “Na verdade, achava que meu pai estava me colocando de castigo porque ele não gostava de bater nos filhos. Era um homem muito calmo e gostava de cantar enquanto trabalhava. Quanto mais eu dizia que não sabia, mais ele me estimulava mandando que eu fizesse muitos bichinhos porque iria vender em Olinda e trazer um dinheirinho para mim. E desse jeito a minha história com o barro começou”, recorda a mestra Maria Amélia, a mais longeva artesã da cerâmica pernambucana e uma das pioneiras da arte santeira. Maria Amélia nasceu no dia 30 de abril de 1923, em Tracunhaém. Não tem outra memória de sua infância que não esteja relacionada ao barro - período em que a cerâmica figurativa começava a ganhar força na cidade. “Lembro que gostava de ficar sentada no torno em que meu pai trabalhava e as minhas pernas sequer atingiam o chão”. Mestre Dunde foi oleiro requisitado que dominava com grande habilidade as técnicas da cerâmica na confecção de jarros, panelas, bacias, canos e até manilhas. A mãe da artesã, Julieta Rita da Conceição, costureira de mão cheia, cuidava da criação dos dez filhos. Maria Amélia dividia seu tempo entre a olaria do pai - onde além das miniaturas fazia acabamento em peças - e o auxílio à mãe nas tarefas domésticas. A menina obediente tomou gosto em fazer bichinhos de barro. “Sempre fiz aquilo que vinha na mente porque meu pai me incentivou, mas nunca disse o que eu deveria fazer. Um dia pensei: quem faz pequeno, pode fazer grande. Aí tive a ideia de criar uma santinha, a primeira de muitas”, relembra Maria Amélia, que desenvolveu ao longo dos anos uma obra autoral forjada na liturgia católica, em barro natural, imponente em sua simplicidade, força expressiva e formas singelas. Seus santos de rostos ovalados, mantos pregueados e delicadamente ornamentados fazem parte de acervos de museus e de coleções particulares no Brasil e no exterior. “As minhas peças andam muito”, admite. Entre seus santos de traços nordestinos destacam-se as imagens de São João do Carneirinho - retirado das histórias das Escrituras -, a Rainha do Céu - uma Nossa Senhora em súplica com os olhos voltados para o alto -, o São Francisco, a Nossa Senhora da Conceição, entre tantos outros, que de forma significativa influenciaram gerações de artistas do barro em Tracunhaém. Por sua importância na cultura popular e pelo papel que assumiu ao longo de décadas na transmissão de saberes, Maria Amélia recebeu diversas honrarias, entre elas, o título de Cidadã Benemérita de Tracunhaém (2002) , o Prêmio Memória do Artesanato Pernambucano (2006) e o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco (2011). Sofrendo de artrose, reduziu consideravelmente sua produção santeira, delegando ao filho, Ricardo, a continuidade da sua arte. “Minhas mãos estão ruins, mas Ricardo já está pronto e fico feliz também em ver meu neto, Ricardinho (Ricardo Félix da Silva Júnior, 18 anos), tomando gosto e descobrindo seu caminho no barro”, assegura a artesã. Os problemas de saúde, no entanto, não tiraram de Maria Amélia os sonhos e tampouco abalaram sua relação de amor com o barro. Muito pelo contrário. Aos 94 anos de idade, deseja retornar às miniaturas da infância e às pequenas peças produzidas pela mãe. Quer voltar à Fenearte - feira que participa desde 2010 - apresentando o novo trabalho.” Nas peças, os artesãos contam suas histórias. Meu pai dizia que o barro era saúde porque descansava por muito tempo nas profundezas da terra. Eu tenho tanto amor pelo barro que quando morrer quero ter um pedaço dele nas minhas mãos”, declara a mestra-artesã.

Endereço:

Tracunhaém, Pernambuco,
fone:
ver fone(81) 3646.1778 / 99696.5646

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